Polícia no país das maravilhas

A sociedade mato-grossense, em especial a cuiabana, está estarrecida com a macrabra história da morte dos dois policiais civis e de um vendedor, há duas semanas, em um posto de gasolina, em Várzea Grande.

O que mais me chama a atenção, entretanto, não é a história em si. O que causou mais revolta e indignação foi a vergonhosa postura adotada pela cúpula da Polícia Judiciária Civil que confabulou uma história digna de deixar os mais lendários contos de fadas para trás.

Se formos enumerar todos os fatos conflitantes ou que não se encaixam, eu precisaria de, no mínimo, 20 ou 30 laudas para discorrer. Mas, mesmo assim, vou pontuar algumas.

A presença do policial João Osni no momento do crime é talvez o ponto mais emblemático da história. Segundo a versão fantasiosa dada pela Polícia, ele estaria abastecendo seu carro no posto 2006, onde o crime ocorreu.

As autoridades sugeriram que ele poderia morar ali perto, o que facilmente justificaria sua presença no local. Pergunta: será que a Polícia não tem, em seu cadastro, o endereço de um servidor para confirmar tal informação?

Inusitado mesmo foi o fato de, segundo a Polícia, "Caveira", como era conhecido João Osni, ter socorrido em seu carro o colega policial civil Edson Leite, que teria sido baleado na barriga. Ironia ou não, os dois eram desafetos declarados. "Caveira" teve um espírito, digamos, caridoso com o desafeto e deixou o outro policial Maxuel, que foi baleado na perna no local. Pergunta: tiro na barriga exige atendimento médico e tiro na perna não?!

Cadê a quebra do sigilo telefônico dos envolvidos? Ora, se tudo foi uma coincidência, os registros telefônicos não apontariam nenhum contato entre os envolvidos, o que reforçaria a tese levantada pela própria Polícia. Até agora nada. A Polícia informou que Edson Leite "pegou" um carro alugado, em ônus para o Estado (?!), para fazer a tal investigação que sequer foi esclarecido se, de fato, existe. Isso é um procedimento padrão da Polícia?

Um delegado de Polícia, durante entrevista coletiva, reconheceu que a vítima Gilson da Silva não era investigado nem tampouco tinha passagens pela Polícia. Entretanto, disparou: "O fato dele não ter passagem, nem ser investigado pela Polícia não significa que ele era inocente".

Será que eu sou inocente? Será que você, leitor, é inocente? Segundo insiste minha pobre e rasa inteligência, a Constituição Brasileira diz que todos são inocentes até que se prove o contrário e o ônus da prova cabe a quem acusa e não a quem é acusado.

Nessa história toda, o que é fato é que o governo do Estado tem se mostrado frouxo, sem postura e inerte. Se tiver um pingo de pulso, o que até agora não teve, o governador Silval Barbosa deve tomar alguma atitude para esclarecer o caso.

O correto mesmo, na minha opinião, é repassar as investigações para a Polícia Federal ou para o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual (MPE). Esses dois órgãos, sim, podem fazer um trabalho investigativo isento, sem máculas ou maracutaias.

A impressão que se tem, por enquanto, é que a própria Polícia Civil não quer enxergar os fatos, as provas, as circunstâncias, as testemunhas...

Será essa postura puro e simples corporativismo classista ou fruto de um procedimento deliberado por instâncias superiores?!

ALEXANDRE APRÁ é editor do MidiaNews Fonte: MidiaNews
alexandre@midianews.com.br

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